5 CLÁSSICOS PARA VOCÊ ENTENDER O DUB

conheça a vertente psicodélica do reggae, na qual a base rítmica é reforçada e camadas e mais camadas de efeitos completam a viagem

 

O Ministério da Saúde não adverte, mas deveria: ouvir muito dub causa desorientação total e absoluta na mente. O impacto é tanto que periga fazer com que você, chapadíssimo, tenha vontade de ligar para uma Nasa imaginária e dizer: “Kingston, nós temos um problema”. A vertente psicodélica do reggae é assim: faz com que qualquer um se sinta perdido no espaço. A culpa é de alguns cientistas loucos disfarçados de engenheiros de som e produtores, pioneiros como King Tubby, Coxsone Dodd, Lee Perry e Prince Jammy, entre outros, que pegaram uma tradição jamaicana – o lado B de um compacto quase sempre vinha com a versão instrumental da música, para que o público ou o MC pudesse cantar por cima – e viajaram até onde homem algum jamais tinha estado. Usando o estúdio como um instrumento e geralmente contando com a ajuda de uma certa fumaça mágica, eles começaram a subverter a ordem natural das músicas, reforçando a base rítmica (baixo e bateria) e tirando e botando as partes consideradas secundárias (teclados, guitarras etc.) ao seu bel-prazer. A isso, acrescentaram um arsenal de efeitos (principalmente ecos), que só fez aumentar o aspecto hipnótico desse som. Nasceu assim o dub, que acabou se tornando um dos subgêneros mais populares do reggae, um som tão viajante que acabou indo parar muito além da Jamaica, influenciando boa parte da música pop e, principalmente, a cultura dance. Afinal, foi graças aos experimentos dub que surgiram os remixes, tão populares hoje em dia. Para não se perder no universo em movimento do estilo, é bom você se guiar por alguns discos fundamentais. E encará-los como estrelas que brilham e desaparecem num céu… Ops, Kingston, nós continuamos com problemas.

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LEE ‘SCRATCH’ PERRY, Arkology (1997) – BOX de 3 CDs :: Caixa com 3 CDs que traz a obra de Lee ‘Scratch’ Perry, o Dalí do dub reggae, capaz de botar tintas surreais em qualquer ritmo, usando sons como sirentes, gritos de elefantes e barulho de tiros. Mas seu estilo não se limitava a isso. No estúdio Black Ark, ele explorou cada detalhe do universo minimalista do dub, dando cores novas ao trabalho de gente como The Wailers, Heptones, Max Romeo, Junior Murvin e muitos outros – além de fazer seu nome como um dos visionários que descobriu que o estúdio podia ser um instumento. Só que um dia, num acesso de loucura, Perry botou fogo no Black Ark, queimando tudo até a última ponta. Seu trabalho, porém, não virou cinza e até hoje é cultuado: os Beastie Boys fizeram uma edição especial de sua revista, Grand Royal, dedicada a ele. — DOWNLOAD: DISCO 1 – http://tinyurl.com/6a8dra, DISCO 2 – http://tinyurl.com/67onom, DISCO 3 – http://tinyurl.com/58b567.

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BURNING SPEAR, Marcus Garvey + Garvey’s Ghost (1975) – Garvey’s Ghost é o lado escuro e enfumaçado do disco Marcus Garvey, lançado em 1975 pelo Burning Spear, um dos mais respeitados nomes do reggae. Nele, o discurso místico e militante do original – que sempre marcou ou trabalho do artista – é substituído por camadas de efeito, cortesia do produtor Jack Ruby. O sucesso de Garvey’s Ghost foi tanto que ele passou a ser mais cultuado (e muitas vezes mais vendido) do que o próprio Marcus Garvey. Um feito, pois, ao lado de Catch a Fire (dos Wailers), este foi um dos discos que marcaram a história do reggae por serem álbuns completos, concebidos assim por um mesmo artista, e não um punhado de singles reunidos por razões comerciais. Há uma versão em CD que reúne os dois discos. Ou seja, imperdível. — DOWNLOADS: Marcus Garvey (http://tinyurl.com/5qpb7x) e Garvey’s Ghost (http://tinyurl.com/62pjz4).

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ASWAD, Hulet (1979) – O mais completo grupo de reggae de todos os tempos, o inglês Aswad flexiona os músculos neste disco que não é exclusivamente de dub (como A New Chapter Of Dub, outro monumento especial da sua discografia), mas que usa as sutilezas e ambiências do estilo para criar uma obra de inspiração soul. Quando Hulet foi lançado, o Aswad não tinha o formato que o consagrou – o trio Brinsley Forde, Drummie Zeb e Tony Gad – e ainda era um quinteto, completado pelo baixista Ras Lev e o guitarrista Donald Benjamin. A qualidade da assinatura Aswad, porém, é mantida de qualquer forma. O disco é uma ponte imaginária ligando Londres, Kingston e Detroit, terra da Motown e da soul music. Ouça a bela “Can’t Walk The Streets” e confirme: Hulet é uma obra-prima do dub melódico. Show! – DOWNLOAD: http://tinyurl.com/5qey6m.

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AUGUSTUS PABLO, King Tubby Meets Rockers Uptown (1976) – Um clássico, por tudo e por todos. Pela banda, formada por Robbie Shakespeare, China Smith e Aston ‘Family Man’ Barret; pela mixagem mágica do mestre King Tubby, um dos pais do dub; e, claro, pelo órgão e timbre encantador da melócida (um teclado tocado por sopro) do genial rasta Augustus Pablo, falecido recentemente. Para sentir o poder do tirmo junto à massa jamaicana: a música que abre o disco, “Baby I Love You So”, virou hit e superou o original de Jacob Miller, que tinha vocais e formato “normais”. Lento como os movimentos numa noite de verão e sedutor como um sonho bom, este disco é peça fundamental em qualquer discoteca dub. – DOWNLOAD: http://tinyurl.com/5oyn9c.

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MASSIVE ATTACK VS. MAD PROFESSOR, No Protection (1995) – Sempre foi nítida a influência do dub no som chapante do Massive Attack e no trip-hop em geral – basta ouvir o que fazem Portishead e Tricky. Mas em No Protection, o grupo de Bristol leva tudo às últimas consequências, graças à dobradinha com Mad Professor, craque do dub feito na Inglaterra. No disco, o “Professor” vira ao avesso as músicas de Protection, o segundo trabalho do Massive Attack, que se transforma num rolo compressor de efeitos que, ei, não estavam aqui antes. Para completar a festa, ainda há os vocais de Tricky, Nicollete, Horace Andy e Tracey Horn (do Everything But The Girl) flutuando por toda a parte e que servem para lembrar como eram as canções originais. – DOWNLOAD: http://tinyurl.com/58dtf4

(por CARLOS ALBUQUERQUE, na Showbizz de julho de 2000)

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